sábado, 25 de outubro de 2008

Mulher entre aspas, parte 1

Título original da obra: «Stile Vivo», tradução de M. Salomé Fernandes e Lucília Correia.
Edições Salesianas
Composto e impresso em Manufacturas Modesta, Porto


Pretendo partilhar um longo caminho expositivo sobre o que se entende por «estilo», ou melhor, por mulher portuguesa nos anos 60 a partir de um almanaque de capa dura cinzenta plastificada que adquiri pelo valor simbólico de 0.50 cêntimos neste mês, numa loja de antiguidades na cidade de Coimbra. Na primeira página deste livrinho surge a citação Mudai de estilo ou mudarei de lugar (D. Fr. Man. de Melo - Apólogos Dialogais II, p. 16).

Toda a obra parte do conceito de «estilo» sempre enunciado entre duas aspas para assim definir o que significa ser um exemplar de «mulher», ou, uma «mulher» exemplar. O «estilo» vai-se definindo e define várias regras de comportamento ao longo de vários espaços: na casa de Deus, em casa, com os vizinhos, com os superiores, na escola,...

Este pequeno perdido e achado livrinho poeticamente escrito na segunda pessoa de um singular feminino pode ser o catalisador de uma noite humorística feita com amigos e na companhia de um bom vinho, como o foi no meu serão de ontem.
Mas muito além de uma anedota para os nossos olhos de hoje, é acima de tudo uma maneira de treinar sensibilidades para o poder que os significados circunscritos num tempo e agilizados por uma instituição de valores específicos podem adquirir quando traduzidos numa palavra («estilo»), tão úteis no forjar de condutas, valores e imagens da identidade feminina que se define por oposição ao que não é e, portanto, que manifesta igualmente o retrato das outras identidades no confronto com as quais especifica a sua singularidade.
Uma relíquia, um tesourinho (deprimente fascizóide?), um testemunho de uma sociedade já longínqua (ou não?), um exercício de lavagem cerebral, um manual de etiqueta e da boa educação, um receituário para o bem, ou uma prova da natureza processual e construída da identidade pessoal e de género que, por ser isso mesmo, ajuda a reflectir sobre a diferença de ser mulher ou de estar (a ser) mulher numa determinada situação relacional com o outro ou outros e, numa dimensão mais macro, um esclarecimento sobre a relação porosa entre aquilo a que chamamos sociedade e o lugar que as pessoas ocupam nela, pois através deste livrinho construímos uma imagem da sociedade portuguesa da altura, feita por pessoas contemporâneas desses valores, supostamente estrangeiras na sociedade portuguesa de hoje que por sua vez constrói outras pessoas e é construida constantemente por outras...
O mais interessante é que o que é estranho para uns pode ser familiar para outros, mesmo entre aqueles que nasceram na mesma geração.

Assim, pela leitura das várias partes deste artefacto cultural muitas questões se colocam mas às quais uma ideia surge transversal a todas: o que é a verdade? O que podemos estar sendo nós na situação x, y ou z? E porque pode ser a «Cortesia Feminina» um bom momento de um serão bem humorado e propiciador de uma conversa interessante?
Para mim este achado é isso: um achado.

Parte 1: introdução
pg. 5-7

ESTILO E ALEGRIA

Eu canto a alegria. A tua alegria.
Inspira o meu canto a vida que tu constróis
na realidade de uma autenticidade pessoal.

«Estilo» é educação interior, que se realiza na
forma externa de cortesia, de domínio,
de boas maneiras, de educada e agradável cordialidade.
São muitos os que fixam os olhos em ti: a tua acção é esperança.

Não é alegria vâ, feita de coisas pobres.
Não é alegria melancólica sobre a qual
cai a triste sombra do entardecer.
Não é alegria rumorosa e oca.
Mas alegria verdadeira.
Porque tu, na grande cidade humana, pelo teu «estilo»,
não serás apenas menina educada e distinta,
serás frase de um diálogo,
serás nota de maravilhosa harmonia,
serás voz, que influenciará o mundo.


ARTE DE BEM VIVER

«ESTILO»

feito de boas maneiras, equilíbrio, educação,
cuja base
é
sinceridade, dignidade, naturalidade.

«Estilo» não é a aparência, ostentação, contrafacção,
é convicção interior.
É expressão de personalidade.
Hoje a vida é feita de relações humanas.
Guerra ao fingimento sentimental nas nossas relações.
Guerra ao comportamento pseudo-moderno,
obstinadamente anticonformista,
feito de atitudes imorais, superficiais,
incorrectas, muitas vezes triviais,
sempre egoístas.

«ESTILO» É A ARTE DE BEM VIVER:

* Não no sentido de «oportunismo»,
Sim no sentido humano e cristão de educação da liberdade interior.
* Percorrer o nosso caminho, com agilidade e desembaraço,
sem estorvar os outros caminhantes.
* Corrigir o temperamento: moderá-lo, nos impulsos mais fortes;
sem renunciar à própria personalidade, antes, mantendo-se na medida do equilíbrio, para não ferir a personalidade dos outros.
* Ter na vida certezas absolutas: ideias-luz, ideias-força, que estabeleçam relações com os «outros» de maneira equilibrada, educada, calma.
Em dominante de caridade.
* Ser uma personalidade que não se concentre demasiado no seu «eu»,
nem dele saia com infantil superficialidade.
Serena, forte e consciente da sua missão,
num desejo de melhorar o mundo.


Pequeno código de cortesia
que transcende
a vã aparência da etiqueta,
para mergulhar as suas raízes na interioridade do espírito.

POR ISSO «ESTILO» É PERSONALIDADE



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