os dois senhores, fotografias de Karina Bertoncini
À medida que acumulo vida
Fico mais tempo
Esse ficando é sereno, honesto, emancipado.
Fico
Com um cigarro que me vai filtrando…
E sem pudor sinto – em silêncio –
Aquilo que sou.
It's been such a long time
And I was just a child then
What will you say
When you see my face?
Time feels like it's flown away
The days just pass and fade away
What will you say
When they take my place?
It's funny now
I just don't feel like I'm a man
What will you say
When you see my face?
My face...
Mother dear, the world's gone cold
No one cares about love anymore
What will you say
When you see my face?
Father do you hear me?
Do you know me?
Do you even care?
What will you say
When they take my place?
My heart can't take this anymore
What will you say
When you see my face?
When you see my,
See my face...
I can feel your time crawling
To a slow end
I can feel my time crawling
To a slow end...
Mother dear, the world's gone cold
No one cares about love anymore
What will you say
When you see my face?
Father do you hear me?
Do you know me?
Did you even care?
What will you say
When you take my place?
Well it's so funny now
I just don't feel like I'm a man
What will you say?
Jeff Buckley ao vivo em Glastonbury
Mystery White Boy, 2000
mais músicas e vídeos aqui e aqui
- Duas semanas, pá! Como é que se pode ficar apanhado em duas semanas?
- Como é que apanhas um cardume se nem sequer estás a pensar no peixe?
É o Amor, é o Amor...
diálogo em
O Capacete Dourado
filme de Jorge Cramez
2007
Make a piece for nuns, for the woman who takes comfort in herself, who finds companionship in an empty room.
Bill Viola



instalação de vídeo "Catherine’s Room", 2001, exposição "The Passions" de Bill Viola, na National Gallery , Londres, 2003
Uma pessoa e um quarto.
Emoções expressas na tela vazia do silêncio.
Ao fundo, uma janela pequena, um marcador que separa e distingue as diferentes apropriações do tempo e do espaço que se vão estabelecendo ao longo de um dia.
Experiências ritualizadas que dão sentido à vivência de um quotidiano.
A pessoa e a sua íntima solidão.
no sofá de veludo azul
desfaz-se a casca dura na pele reabsorvida,
bebe-se um gole de chá
adocicado com mel,
trauteia-se um refrão daquela música que soube tocar
e
evita-se o último cigarro
para
mais tarde se fumar,
naquele momento que o saberá justificar.
Conto recolhido em Castelo Branco
Candeeiros de Cinquenta Luzes, Mesas de Engonsos e Garfos de Cinco Pontas
«Em tempos distantes, havia um rei que tinha uma filha muito linda. Entre os muitos criados que a serviam, um gostava muito dela, e ela também gostava dele, mas, pelas suas situações, não podiam casar-se.
O criado, quando lhe diziam que era tonto em pensar casar com filha do rei, respondia:
- Ai casa tão rica a de meus pais: candeeiros de cinquenta luzes, mesas de engonsos e garfos de cinco pontas!
Tantas vezes estas palavras foram repetidas aos ouvidos do rei que acabou por admitir o casamento da filha com o criado.
Ficou muito admirado de encontrar uma casa muito pobre, e perguntou onde estavam os candeeiros de cinquenta luzes, mesas de engonsos e garfos de cinco pontas.
- Espere que venha minha mãe, - respondeu o criado.
Momentos depois aparece uma velha que trazia no regaço muitas pinhas que pôs na lareira e a que deitou o fogo. Acesas, as pinhas com as suas lindas chamas, o rapaz disse muito contente:
- Aí estão os candeeiros de cinquenta luzes.
Como eram horas do jantar, o rei perguntou pela mesa de engonsos. O criado disse:
- A mesa de engonsos são os joelhos, onde pomos os pratos para comermos.
Admirado por não ver os garfos, o rei perguntou também por eles.
-Os garfos de cinco pontas são os cinco dedos, - respondeu o noivo.
Mas como a filha do rei gostava muito do criado, e vista a esperteza dele, o rei consentiu o casamento.»
In Contos e Lendas da Beira
Recolhas de Jaime Lopes Dias
Edições Alma azul
2002
Quando se anda de saltos altos, as vistas lá de cima parecem ter a segurança de uma rede cá em baixo. O comprometimento com as coisas que se vão vendo e calcando parece menor, porque o andar assenta num bamboleio frágil feminino, sedutor mas igualmente fugidio. A procura constante de um equilíbrio resulta num álibi perfeito.
Quando se vestem umas sapatilhas de ponta, isto para quem dança ou dançou ballet, a realidade eleva-se e transforma-se em sonho, o desejo de poder tocar levemente o chão apenas com uns centímetros de mim na iminência de um voo, acontece. Neste caso, em sonho não há lugar para justificações. A ilusão de liberdade anula qualquer vínculo ao solo.
Na ausência de saltos, ou pontas, (e apesar de a postura ser ainda a do ballet, rígida e tensa), resta-nos a planta do pé irremediavelmente estendida na horizontalidade do chão. Aí, não há fuga possível a um comprometimento com aquilo que nos permite um equilíbrio vertical real, sentido desde o calcanhar ao dedo grande do pé. O estar mais próximo da terra significa a possibilidade de estar mais próximo do nosso corpo e, consequentemente do que se passa dentro da nossa cabeça, lá em cima.
O que há de comum entre as três hipóteses? O latejar de veias nas mesmas pernas. (?)
fotografia: Marta, Só. Recursos
Embebida na memória de outras vivências
Lembro a dita frase
“prá frente é que é o caminho!”
Como diria um velho sábio.
Apaziguo a caminhada pela contemplação do que é belo
Pela exigência do que é perfeito
Pelo prazer do que é difícil poder chegar a fazer parte de mim
E assim
Pelos meus pés
Construo águas de verão
Frescas e bem vindas
Ao meu mundo.
Da Lagoa de Santo André para Porto Covo
9 de Agosto
moinhos de vento tão perto, Sines ao fim da tarde, Porto Covo, campismo-enclave, comunidade nativa, a procura de sítio para a tenda, a vizinha russa, fome, iscas de fígado, pão alentejano, Super Bock versus Sagres, empregada caboverdiana de rabo espetado, música brasileira, dançar e olhar, dormir apertadinhos, Ana e Lisboa, mudar de sítio, confusão, café no jardim, pastel de nata, Internet, hambúrguer com batatas fritas e caipirinha tipo limonada,"Ana!" a praia dos Banhos e as grutas, o medo de descer as escarpas, a senhora informante "eu trazia p'ra qui os meus filhos e punha-os a descer isto tudo!", a maré baixa e o grande areal, voltar para tomar banho, as vitaminas da salada de frutas para a Joana, o pão com paio para a Ana, o bolo enjoativo de pinhões e açúcar cristalizado para o Pedro e Cristina, beber e dançar, dormir, mercado, orégãos colhidos no monte pela velhota e netos, as ameixas cheirosas, o queijinho fresco, a grandiosidade do Cabo Sardão, fotografias e balizas, “Pedro!”, almoço na mesa de pedra, o cão esfaimado, à procura do depósito d’água, café com azívias, o cão embalsamado da mercearia, praia do Cavaleiro, albatroz ferido salvo pelo corta-unhas do Pedro!, agitação, voltar, emissões de rádios locais e cantarolar no carro, lanche de choquinhos fritos e polvo ensalsado, pão alentejano com muito azeite, à espera da Rita!, massada de peixe, conversas, noite, dançar, padaria e queques noctívagos, vizinhos com brasas a arder, inquietação, dormir, desmontar tenda, trouxa a mais!!!!!, partir para sul, Dead Combo e a paisagem alentejana, Until the end of the World e a Costa Vicentina, Nick Cave e a calma há tanto tempo desejada.
De Coimbra a Lagoa de Santo André
8 Agosto
Acordar 8:00 horas, a trouxa ainda vinda de trás os montes, ansiedade com relaxe, Lígia, mano, últimos mails, pesquisa de percursos na estrada, A2, IP8, estação de serviço, sede, calor, Fausto, "Ah, como eu te quero...", paisagem amarela, cheiro a bananas no carro, incerteza nos caminhos rurais, ao longe o mar!, Ana na estrada, “Olá!”, Joana morena, beijinhos, “Boas férias mano!”, “Obrigada Lígia!”, azeitonas verdes, atum fresco, dunas, conversas na praia, tóxico chato, Pedro a chegar, Santiago do Cacém, campingáz embruxado, Pedro e wc público, “Helloooo”, parque de campismo, burocracias, a escolha do espaço com sombra, “a sombra deve ser aqui… no caminho marcado por rodas…”, vestido e soutien esquecido, fome, carne de porco à alentejana verdadeira, início da saga do pão, a empregada gorda, o ciber café, o sentimento alheio no karaoke, olhares de férias, cansaço, saco cama, vizinhos pastilhados, 5:00 da manhã “é agora!!!! esmagados pela grandeza de um jeep!”, risos, tractor às 7:00 na recolha de lixo, muito sol na tenda fora da sombra mas no trilho da morte!, esteira para o pequeno almoço, bar, torrada, “Cristina sempre arranjada com os seus vestidos!”, festa de cantares de Alcácer do Sal, tomates e amêndoas, praia, ler o Público, lagoa verde quente, rebolar nas dunas e quase gregor…., chinelo que se descola, “ai!”, chouriço assado com muito pão alentejano, a bifana do Pedro, os tomates comidos como maçãs, a fartura quente, cantares alentejanos, a hospitalidade alentejana, comunidade de um lar, solidão,…., roupa dos ciganos, desmontar tenda, partir.
fotografia: Marilia Sousa Coutinho,
bebe-se a coragem
Num copo vazio diluo-me nos cubos de gelo que refrescam a minha bebida
Imaginária
Lá dentro vejo
Fragmentos de ti
Uma outra imagem desfocada que me apetece tocar.
Bebo a coragem
Para depois me permitir abraçar sem medo
E entrelaçar a minha mão na tua
Bem forte.
Se houvesse um medidor de estados de tempo…
O tempo ditador e o tempo livre
O tempo com amarras e o tempo solto
O tempo parasita e o tempo simbiose
O tempo vigiado ao segundo e o tempo que se esquece que está lá
O tempo que corrói e o tempo que se esvai num ápice
O tempo que é tempo e o tempo que não é tempo.
(Ansiedades por tempo...)
Confusão de tempos no início de férias………
Isto passa.
"o boletim meteorológico anunciou calor, não vou duvidar,
faz sentido no meu sistema solar." (Jorge Palma)
Amanhã na batalha chorarás por mim e por ti quem sabe eu te espere algures num pedaço de terra num pedaço de vidro partido debaixo de pés, sem pé, respiro fumos que me inebriam e me levam acima de um céu bem azul onde um gato se perdeu. Desci pela escadaria do palácio que estava a ser esquecido e perdi-me na contemplação de uma nuvem de mosquitos. E desta nuvem ecoaram vozes macabras que faziam sair das suas pinças chupadores rostos de sangue. Como gárgulas, aquelas caras que surgem nas portas das igrejas, seres humanos ou mortos? dentro desta morgue mesmo em cima da minha casa.
Pronto, está bem, eu paro e fico aqui suspensa no ar, não me movo, só olho, só cheiro e desculpa-me mas não vou conseguir conter um grito, aqui, sozinho, e ninguém me ouve … AH AHHHHHHHHHHHHH
Versões, mundos (d)escritos em português
(Contos de vários autores)
Mia Couto, Moçambique
Não passa de uma corrente de ar. Matá-la? Como? As janelas estão fechadas, a porta aferrolhada e, no entanto, com certeza, o ar corre, arrasta-se, espia-me. Envolve-me. Entra por todos os lados e gela-me. De onde vem e por onde passa?
Matá-la, como se fosse o pavio de uma vela e deixá-la assim negra e torcida no chão como uma serpente morta, a cabeça esmagada e o sangue frio formando uma poça imunda e viscosa. Um sopro que destruiria esse sopro frio que me atravessa as costas, hálito vindo da rua, do mundo que me escuta: esse frio que foi concebido contra mim. Esse ar: assassiná-lo. Soprar para que fique sem sopro. Palavra acertada! Soprar a vela! Mas como conseguir matar essa filha do ar, que me está a matar?
Max Aub
Crimes Exemplares
imagem: retirada do livro Saha, a gata;
Colette, ilustração de José Paulo Ferro
gosto muito deste desenho.
não por ser enigmático ou feito a carvão
mas sim por mostrar uma face de mulher triste
numa figura de gato
Gata
Mulher Gata
a olhar para ti
a olhar-te e a ver-se a ela própria
num painel espelhado deslocado da moldura
seguro por um fio
de pesca
no vazio da distância entre a Mulher Gata e tu
só ela
por si
existe
existirá
na sombra escura das portas entreabertas
a ver-te existir
por ti
Só.

a curiosidade matou o gato
mas o gato não morreu
foi bater àquela porta
onde a velhota não atendeu
então espreitou pela janela
e viu tintas de cor como nunca
em cima de uma tela
como nunca alguém pintou
o que de dentro imagina e o que de fora ausentou
imagem: Curiosity, Jon Bertelly

imagem: currituck light stairs # 1,
Frank Tozier
Quando vejo umas escadas em caracol vejo também memórias de uma infância que nunca teve o hábito diário ou esporádico de percorrer umas escadas em caracol. Mas o que é certo é que esta memória , diria quase de fantasia, tem contornos de realidade a cheirar a naftalina típica das arcas de roupas usadas, roupas da avó e bisavó.
As escadas que custam a subir, que obrigam a um esforço sobrenatural, nunca se esvaem da nossa história, a história de cada um.
Mas as que sobem em caracol, essas, por serem tão rendilhadas no seu percurso, tão estonteantes, fazem-se a rir, por entre brincadeiras e vertigens que sabem bem.
São escadas que expressam um movimento que cresce em espiral, têm vida em si próprias. Parece que aquilo a que conduzem, lá em cima, é algo especial e digno de ser alcançado pela repetição de voltas e mais voltas. Lá em cima é maior do que cá em baixo.
Deve ser este imaginário que construiu uma memória minha (ou a memória é que construiu o imaginário) que, na realidade, nunca se esboçou no meu passado.
As escadas em caracol fazem parte daquelas memórias que são reinventadas por nós talvez para completar as imagens rarefeitas daquilo que a nossa memória nos lembra que um dia fomos dentro de um contexto que nos lembra para sermos algo.
A memória vai-se condimentando à medida que vou actualizando, em processo e não em fim, a minha identidade.
se pudesse decifrar as entrelinhas do que sinto e penso,
então viajaria em constante viagem
e olharia por debaixo das pedras da calçada portuguesa
a sombra de pó gasta pela miserável vidinha daqueles que a pisam,
todos os dias
à mesma horinha
no mesmo destino.
nesta cruel confusão
a meio de arranhadelas de gato preto carente
desdobro os meus olhos em mais dois
na urgência de focar a imagem desfocada do que escrevo
e
sinto
e
penso.
Olhávamos agora a bailarina que ocupava o centro da sala numa dança de mulher sem braços. Dançava como se fosse surda e não pudesse seguir o ritmo da música. Dançava como se não pudesse ouvir o som das castanholas. Dança isolada e separada da música, de nós, da sala, da vida. As castanholas soavam como passos de fantasmas.
imagem: touch life, rabi khan
Vibrissar por Cristina Valentim