terça-feira, 9 de outubro de 2007

em silêncio







os dois senhores
, fotografias de Karina Bertoncini





À medida que acumulo vida
Fico mais tempo
a ver o que tenho dentro.
Esse ficando é sereno, honesto, emancipado.
Fico
Com um cigarro que me vai filtrando…
E sem pudor sinto – em silêncio –
Aquilo que sou.



segunda-feira, 8 de outubro de 2007

domingo, 7 de outubro de 2007

de luvas



Sat night, Sun morn R; pintura de Sas Christian

mais pinturas aqui



não, as lágrimas negras que vês não são lágrimas negras.
o tecido da minha luva, negra, humedeceu e deixou, em mim, a marca de um grito que não é meu.





sexta-feira, 5 de outubro de 2007

hipótese (?)




A luxúria é o orgulho do corpo; o amor é o orgulho da alma, um orgulho que não é mais que a luxúria da alma.

Alexandre Puchkine
Diário Secreto
(1836-1837)



quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Voltar


imagem: Girl Reading,
Oliver Ray


Como hoje se disse, actualmente a Antropologia é antes de mais uma tecnologia que serve para pensar (sobre), para resolver equívocos, conflituosidades, lêr nas "entrelinhas" o que não parece ser assim (infelizmente) tão visível e tão deveras importante.
Voltar a trabalhar esta questão é, para mim, um privilégio.
Mas há um receio subjacente, típico de quem esteve fora demasiado tempo.
Voltar ao espaço onde aconteceram mudanças profundas na construção e noção de pessoa, com tudo o que isso implicou (e ainda implica) é uma experiência perturbante, porque forte emocional e organicamente.
O início de um novo começo está a despoletar algo... Há decisões a necessitar de moderação, de reflexão em processo, de olhares precisos, de re-leituras.
Voltar a viajar.




terça-feira, 2 de outubro de 2007

minutos de lusco-fusco em Coimbra




fotografias: conchada 2003
Rita.



memórias de minutos..... minutos de memórias.......





segunda-feira, 1 de outubro de 2007

frase solta

imagem: Yoshitaka Amano



os apaixonados assassinam malmequeres para poderem acreditar na eternidade dos amores precários.



Al Berto


domingo, 30 de setembro de 2007

What will you say?




It's been such a long time
And I was just a child then
What will you say
When you see my face?
Time feels like it's flown away
The days just pass and fade away
What will you say
When they take my place?
It's funny now

I just don't feel like I'm a man
What will you say
When you see my face?
My face...
Mother dear, the world's gone cold
No one cares about love anymore
What will you say
When you see my face?
Father do you hear me?
Do you know me?
Do you even care?
What will you say
When they take my place?
My heart can't take this anymore
What will you say
When you see my face?
When you see my,
See my face...
I can feel your time crawling
To a slow end
I can feel my time crawling
To a slow end...
Mother dear, the world's gone cold
No one cares about love anymore
What will you say
When you see my face?
Father do you hear me?
Do you know me?
Did you even care?
What will you say
When you take my place?
Well it's so funny now
I just don't feel like I'm a man
What will you say?



Jeff Buckley ao vivo em Glastonbury
Mystery White Boy, 2000


mais músicas e vídeos aqui e aqui






sexta-feira, 28 de setembro de 2007

aquela forma de me olhar

fotografia: Judy Miss Ben Joud, 2002




de vibrissas bem despertas
sem medo e sem barreiras
de frente
olhos nos olhos
com a curiosidade que basta,
e portanto q.b.,
para criar uma corda entre,
um entendimento entre
dois.
sensibilidades captadas
traduzidas
trocadas e
de quando em vez
tocadas.


quinta-feira, 27 de setembro de 2007

ora com licença...



Momentos finais de intimidade com um franguinho estufado e um copo de vinho tinto.


fotografia: Maio de 2007, a catarse em minha casa
Rui Gaspar


quarta-feira, 26 de setembro de 2007

o acaso do Amor



- Duas semanas, pá! Como é que se pode ficar apanhado em duas semanas?

- Como é que apanhas um cardume se nem sequer estás a pensar no peixe?
É o Amor, é o Amor...



diálogo em
O Capacete Dourado
filme de Jorge Cramez
2007

(ver sinopse)








imbecilidade

pare

escute

e

olhe.

não tropece.

mostre-se digno da curiosidade alheia.



terça-feira, 25 de setembro de 2007

Life's too short for the wrong job!














sugestão da Joana
(tens toda a razão, amiga! estou na caixa há já muito...)


quinta-feira, 20 de setembro de 2007

os cinco mistérios do dia-a-dia



Make a piece for nuns, for the woman who takes comfort in herself, who finds companionship in an empty room.
Bill Viola






instalação de vídeo "Catherine’s Room", 2001, exposição "The Passions" de Bill Viola, na National Gallery , Londres, 2003




Uma pessoa e um quarto.
Emoções expressas na tela vazia do silêncio.
Ao fundo, uma janela pequena, um marcador que separa e distingue as diferentes apropriações do tempo e do espaço que se vão estabelecendo ao longo de um dia.
Experiências ritualizadas que dão sentido à vivência de um quotidiano.
A pessoa e a sua íntima solidão.





quarta-feira, 19 de setembro de 2007

momento



no sofá de veludo azul
desfaz-se a casca dura na pele reabsorvida,
bebe-se um gole de chá
adocicado com mel,
trauteia-se um refrão daquela música que soube tocar
e
evita-se o último cigarro
para
mais tarde se fumar,
naquele momento que o saberá justificar.



terça-feira, 18 de setembro de 2007

A Oralidade e a Cultura Popular



Conto recolhido em Castelo Branco


Candeeiros de Cinquenta Luzes, Mesas de Engonsos e Garfos de Cinco Pontas

«Em tempos distantes, havia um rei que tinha uma filha muito linda. Entre os muitos criados que a serviam, um gostava muito dela, e ela também gostava dele, mas, pelas suas situações, não podiam casar-se.
O criado, quando lhe diziam que era tonto em pensar casar com filha do rei, respondia:
- Ai casa tão rica a de meus pais: candeeiros de cinquenta luzes, mesas de engonsos e garfos de cinco pontas!
Tantas vezes estas palavras foram repetidas aos ouvidos do rei que acabou por admitir o casamento da filha com o criado.
Ficou muito admirado de encontrar uma casa muito pobre, e perguntou onde estavam os candeeiros de cinquenta luzes, mesas de engonsos e garfos de cinco pontas.
- Espere que venha minha mãe, - respondeu o criado.
Momentos depois aparece uma velha que trazia no regaço muitas pinhas que pôs na lareira e a que deitou o fogo. Acesas, as pinhas com as suas lindas chamas, o rapaz disse muito contente:
- Aí estão os candeeiros de cinquenta luzes.
Como eram horas do jantar, o rei perguntou pela mesa de engonsos. O criado disse:
- A mesa de engonsos são os joelhos, onde pomos os pratos para comermos.
Admirado por não ver os garfos, o rei perguntou também por eles.
-Os garfos de cinco pontas são os cinco dedos, - respondeu o noivo.
Mas como a filha do rei gostava muito do criado, e vista a esperteza dele, o rei consentiu o casamento.»



In Contos e Lendas da Beira
Recolhas de Jaime Lopes Dias

Edições Alma azul
2002




segunda-feira, 17 de setembro de 2007

em danças


fotografia: (?)



Quando se anda de saltos altos, as vistas lá de cima parecem ter a segurança de uma rede cá em baixo. O comprometimento com as coisas que se vão vendo e calcando parece menor, porque o andar assenta num bamboleio frágil feminino, sedutor mas igualmente fugidio. A procura constante de um equilíbrio resulta num álibi perfeito.

Quando se vestem umas sapatilhas de ponta, isto para quem dança ou dançou ballet, a realidade eleva-se e transforma-se em sonho, o desejo de poder tocar levemente o chão apenas com uns centímetros de mim na iminência de um voo, acontece. Neste caso, em sonho não há lugar para justificações. A ilusão de liberdade anula qualquer vínculo ao solo.

Na ausência de saltos, ou pontas, (e apesar de a postura ser ainda a do ballet, rígida e tensa), resta-nos a planta do pé irremediavelmente estendida na horizontalidade do chão. Aí, não há fuga possível a um comprometimento com aquilo que nos permite um equilíbrio vertical real, sentido desde o calcanhar ao dedo grande do pé. O estar mais próximo da terra significa a possibilidade de estar mais próximo do nosso corpo e, consequentemente do que se passa dentro da nossa cabeça, lá em cima.

O que há de comum entre as três hipóteses? O latejar de veias nas mesmas pernas. (?)





sexta-feira, 14 de setembro de 2007

um olhar



na imensidão do que se apresenta em volta
há corpos que se expressam no momento em que
supostamente
ninguém se atenta a olhá-los,
desfocá-los para assim os traduzir.
no entanto é nesse momento de engano consentido
que a honestidade rompe o colete de lantejoulas
e oferece a quem não desiste de querer ver
um outro corpo
tão deliberadamente escondido
tão humanamente construído.

é naquele olhar para dentro que (te) vou vendo,
procurando aos poucos.




quarta-feira, 12 de setembro de 2007

holidays parte IV



conversando em Porto Covo, num banquinho de jardim alentejano




fotografias: no paleio noctívago
Ana ( a fotógrafa on job)



segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Vincent

primeiro trabalho em stop-motion de Tim Burton, 1982


domingo, 9 de setembro de 2007

pé (s)

fotografia: Marta, Só. Recursos



Embebida na memória de outras vivências
Lembro a dita frase
“prá frente é que é o caminho!”
Como diria um velho sábio.
Apaziguo a caminhada pela contemplação do que é belo
Pela exigência do que é perfeito
Pelo prazer do que é difícil poder chegar a fazer parte de mim
E assim
Pelos meus pés
Construo águas de verão
Frescas e bem vindas
Ao meu mundo.



quinta-feira, 6 de setembro de 2007

notas de campo em férias II



Da Lagoa de Santo André para Porto Covo

9 de Agosto


moinhos de vento tão perto, Sines ao fim da tarde, Porto Covo, campismo-enclave, comunidade nativa, a procura de sítio para a tenda, a vizinha russa, fome, iscas de fígado, pão alentejano, Super Bock versus Sagres, empregada caboverdiana de rabo espetado, música brasileira, dançar e olhar, dormir apertadinhos, Ana e Lisboa, mudar de sítio, confusão, café no jardim, pastel de nata, Internet, hambúrguer com batatas fritas e caipirinha tipo limonada,"Ana!" a praia dos Banhos e as grutas, o medo de descer as escarpas, a senhora informante "eu trazia p'ra qui os meus filhos e punha-os a descer isto tudo!", a maré baixa e o grande areal, voltar para tomar banho, as vitaminas da salada de frutas para a Joana, o pão com paio para a Ana, o bolo enjoativo de pinhões e açúcar cristalizado para o Pedro e Cristina, beber e dançar, dormir, mercado, orégãos colhidos no monte pela velhota e netos, as ameixas cheirosas, o queijinho fresco, a grandiosidade do Cabo Sardão, fotografias e balizas, “Pedro!”, almoço na mesa de pedra, o cão esfaimado, à procura do depósito d’água, café com azívias, o cão embalsamado da mercearia, praia do Cavaleiro, albatroz ferido salvo pelo corta-unhas do Pedro!, agitação, voltar, emissões de rádios locais e cantarolar no carro, lanche de choquinhos fritos e polvo ensalsado, pão alentejano com muito azeite, à espera da Rita!, massada de peixe, conversas, noite, dançar, padaria e queques noctívagos, vizinhos com brasas a arder, inquietação, dormir, desmontar tenda, trouxa a mais!!!!!, partir para sul, Dead Combo e a paisagem alentejana, Until the end of the World e a Costa Vicentina, Nick Cave e a calma há tanto tempo desejada.


terça-feira, 4 de setembro de 2007

holidays parte III


a Joana e a Rita caminhando para a ria...







mais a Cristina, agora na passagem da ria para o mar....






fotografias: praia da Carrapateira, Aljezur, Algarve
Ana









notas de campo em férias I



De Coimbra a Lagoa de Santo André

8 Agosto


Acordar 8:00 horas, a trouxa ainda vinda de trás os montes, ansiedade com relaxe, Lígia, mano, últimos mails, pesquisa de percursos na estrada, A2, IP8, estação de serviço, sede, calor, Fausto, "Ah, como eu te quero...", paisagem amarela, cheiro a bananas no carro, incerteza nos caminhos rurais, ao longe o mar!, Ana na estrada, “Olá!”, Joana morena, beijinhos, “Boas férias mano!”, “Obrigada Lígia!”, azeitonas verdes, atum fresco, dunas, conversas na praia, tóxico chato, Pedro a chegar, Santiago do Cacém, campingáz embruxado, Pedro e wc público, “Helloooo”, parque de campismo, burocracias, a escolha do espaço com sombra, “a sombra deve ser aqui… no caminho marcado por rodas…”, vestido e soutien esquecido, fome, carne de porco à alentejana verdadeira, início da saga do pão, a empregada gorda, o ciber café, o sentimento alheio no karaoke, olhares de férias, cansaço, saco cama, vizinhos pastilhados, 5:00 da manhã “é agora!!!! esmagados pela grandeza de um jeep!”, risos, tractor às 7:00 na recolha de lixo, muito sol na tenda fora da sombra mas no trilho da morte!, esteira para o pequeno almoço, bar, torrada, “Cristina sempre arranjada com os seus vestidos!”, festa de cantares de Alcácer do Sal, tomates e amêndoas, praia, ler o Público, lagoa verde quente, rebolar nas dunas e quase gregor…., chinelo que se descola, “ai!”, chouriço assado com muito pão alentejano, a bifana do Pedro, os tomates comidos como maçãs, a fartura quente, cantares alentejanos, a hospitalidade alentejana, comunidade de um lar, solidão,…., roupa dos ciganos, desmontar tenda, partir.



segunda-feira, 3 de setembro de 2007

domingo, 2 de setembro de 2007

abracadabra!


fotografia: bruxinha
Ana


ups!



sexta-feira, 31 de agosto de 2007

expressão

imagem: calligraphie
Cali Rezo



A expressividade do ser livre assusta quem finge parecer livre.



quinta-feira, 30 de agosto de 2007

caminhos


fotografia: Caminhos
Alba Luna



Há caminhos que se fazem a pé, pé ante pé, a correr, a rir
Ou simplesmente a contemplar o belo de que são feitos.
Há caminhos que se fazem a voar
Porque são inspiradores.
Mas há caminhos que
Implicam um início e um fim.
Os mais sensatos fazem estes caminhos com um guarda-chuva
Porque a chuva pode surgir a qualquer momento.
Aquele aroma que a denuncia
Inspira e é de um paladar doce
Pode ser castrador
Quando a natureza intrínseca ao caminho
Que percorres descalço
É mais forte do que aquilo que desejas, queres e esperas ver.
Há caminhos que estão à nossa medida
e outros não.
Faz-se um desvio.


quarta-feira, 29 de agosto de 2007

na urgência sublime de outro sítio


imagem: Cheval Noir




O retrato fora da moldura
Caminha
Sem mãos,
Porque essas guardam aqueles segredos de barro
Que mais ninguém pode suster
Na falta profunda de ver.
Caminha
Na urgência sublime de outro sítio
Tão díspar como este
Mas outro que não este.





terça-feira, 28 de agosto de 2007

holidays parte II


deliciosa casa de banho do parque de campismo rural da Ingrina
Raposeira, Algarve


fotografia: Ana

sábado, 25 de agosto de 2007

Mack the Knife






versão de Stone Jazz


Kurt Weill / Bertolt Brecht , Mack the Knife

Ténue sono neste despertar que magoa
Mesmo depois de ver o sol lá fora.
As cortinas abrem-se e já cheira a café amargo com açúcar.
Fuma-se mais um cigarro com a música certa.
E os gatos, cúmplices, ficam quietos a olhar-me
Olhos nos olhos
À espera de mim.
Hei-de voltar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

holidays parte I


praia do Cavaleiro, perto do Cabo Sardão, costa vicentina, Alentejo

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Walking In My Shoes



I would tell you about the things
They put me through
The pain I've been subjected to
But the Lord himself would blush
The countless feasts laid at my feet
Forbidden fruits for me to eat
But I think your pulse would start to rush
Now I'm not looking for absolution
Forgiveness for the things I do
But before you come to any conclusions
Try walking in my shoes
Try walking in my shoes
You'll stumble in my footsteps
Keep the same appointments I kept
If you try walking in my shoes
If you try walking in my shoes
Morality would frown upon
Decency look down upon
The scapegoat fate's made of me
But I promise now, my judge and jurors
My intentions couldn't have been purer
My case is easy to see
I'm not looking for a clearer conscience
Peace of mind after what I've been through
And before we talk of any repentance
Try walking in my shoes
Try walking in my shoes
You'll stumble in my footsteps
Keep the same appointments I kept
If you try walking in my shoes
If you try walking in my shoes
Try walking in my shoes

Depeche Mode


amigas!
tenho saudades vossas....................................................


fotografia: a saudosa
Rui Gaspar

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

beber coragem

fotografia: Marilia Sousa Coutinho,
bebe-se a coragem



Num copo vazio diluo-me nos cubos de gelo que refrescam a minha bebida
Imaginária
Lá dentro vejo
Fragmentos de ti
Uma outra imagem desfocada que me apetece tocar.
Bebo a coragem
Para depois me permitir abraçar sem medo
E entrelaçar a minha mão na tua
Bem forte.



imaginário




fotografia: Duarte Almeida

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

voltar é bom.
agora envolvo-me dentro do bom que foi.
mas quero que seja bom voltar para poder sair de novo em paz.
para ir para onde quero sempre ir.
saudades, amigos!

terça-feira, 7 de agosto de 2007

prochainement....




au revoir!

imagem: Théophile Steinlen

sábado, 4 de agosto de 2007

boletim meteorológico



Se houvesse um medidor de estados de tempo…
O tempo ditador e o tempo livre
O tempo com amarras e o tempo solto
O tempo parasita e o tempo simbiose
O tempo vigiado ao segundo e o tempo que se esquece que está lá
O tempo que corrói e o tempo que se esvai num ápice
O tempo que é tempo e o tempo que não é tempo.
(Ansiedades por tempo...)
Confusão de tempos no início de férias………
Isto passa.


"o boletim meteorológico anunciou calor, não vou duvidar,
faz sentido no meu sistema solar." (Jorge Palma)

chez mer...




imagem: costume de bain

George Barbier

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

aracnideando


meus amigos, desejo a todos umas boas férias aracnídeas.

(Se ainda não tem carta de campista, por favor dirija-se ao clube de caravanismo mais perto de si. Esta nova identidade confere-lhe seguro contra aranhas gigantes típicas da costa alentejana, como também a possibilidade de ganhar um brinde que se encontrará sensivelmente a 0,50 m de profundidade debaixo da sua tenda.
Boa sorte!)


desenho de Pedro Faria

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

a gosto


A gosto
as águas ocupam todo o campo de visão
azuis esverdeadas habitadas pela areia e pela gaivota
que se encaixa lá, pequenina.
é chegado o tempo de parar
para pensar.
A gosto
numa lufa-lufa de loucos
se prepara a partida para algum lugar
de natureza distante
no qual se renova o corpo
mas não a mente
porque essa
não vai parar de pensar todos os minutos precedentes não pensados.
cansaço a gosto?



quarta-feira, 1 de agosto de 2007

a metáfora




fotografia: sincronismo
Xã

terça-feira, 31 de julho de 2007

cadáver esquisito I


Amanhã na batalha chorarás por mim
e por ti quem sabe eu te espere algures num pedaço de terra num pedaço de vidro partido debaixo de pés, sem pé, respiro fumos que me inebriam e me levam acima de um céu bem azul onde um gato se perdeu. Desci pela escadaria do palácio que estava a ser esquecido e perdi-me na contemplação de uma nuvem de mosquitos. E desta nuvem ecoaram vozes macabras que faziam sair das suas pinças chupadores rostos de sangue. Como gárgulas, aquelas caras que surgem nas portas das igrejas, seres humanos ou mortos? dentro desta morgue mesmo em cima da minha casa.
Pronto, está bem, eu paro e fico aqui suspensa no ar, não me movo, só olho, só cheiro e desculpa-me mas não vou conseguir conter um grito, aqui, sozinho, e ninguém me ouve … AH AHHHHHHHHHHHHH







Cristina, Ana, Raquel, António, Inês e Celina

Tropical by night







segunda-feira, 30 de julho de 2007

noite de lua cheia

fotografia: Ricardo Cruz



a noite de lua laranja

conto I



Versões, mundos (d)escritos em português

(Contos de vários autores)

Mia Couto, Moçambique



A despedideira

Há mulheres que querem que o seu homem seja o Sol. O meu quero-o nuvem. Há mulheres que falam na voz do seu homem. O meu que seja calado e eu, nele, guarde meus silêncios. Para ser a minha voz quando Deus me pedir contas. No resto, que tenha medo e me deixe ser mulher, mesmo que nem sempre sua. Que ele seja homem em breves doses. Que exista em marés, no simples ciclo das águas e dos ventos. E, vez em quando, seja mulher, tanto quanto eu. As suas mãos as quero firmes quando me despir. Mas ainda mais quero que ele me saiba vestir. Como eu se mesma me vestisse e ele fosse a mão da minha vaidade.

Há muito tempo, me casei, também eu. Dispensei uma vida com esse alguém. Até que ele foi. Quando me deixou já não me deixou a mim. Que eu já era outra, habilitada a ser alguém. Às vezes, contudo, ainda me adoece uma saudade desse homem. Lembro do tempo em que me encantei, tudo era um princípio. Eu era nova, dezanovinha.

Quando ele me dirigiu palavra, nesse primeiríssimo dia, dei conta que, até então, nunca eu tinha falado com ninguém. O que havia feito era comerciar palavra, em negoceio de recado. Falar é outra coisa, é essa ponte sagrada em que ficamos pendentes, suspensos sobre o abismo. Falar é outra coisa, voz digo. Dessa vez, com esse homem, na palavra, eu me divinizei. Como perfume em que perdesse minha própria aparência. Me solvia na fala, insubstanciada.

Lembro desse encontro, dessa primogénita primeira-vez. Como se aquele momento fosse, afinal, toda a minha vida. Aconteceu aqui, neste mesmo pátio em que agora o espero. Era uma tarde boa para a gente existir. O mundo cheirava a casa. O ar por ali parava. A brisa sem voar, quase nidificava. Vez e voz, os olhos e os olhares. Ele, em minha frente, todo chegado como se a sua única viagem tivesse sido para a minha vida.

No entanto, aparentava distância. O fumo escapava entre os seus dedos. Não levava o cigarro à boca. Em seu parado gesto, o tabaco a si se consumia. Ele gostava assim: a inteira cinza tombando intacta no chão. Pois eu tombei igualzinha à cinza. Desabei inteira sob o corpo dele. Depois, me desfiz em poeira, toda estrelada no chão. As mãos dele: o vento espalhando cinzas. Eu.

Era essa tarde, já descaída em escuro. Ressalvo. Diz-se que a tarde cai. Diz-se que a noite também cai. Mas eu encontro o contrário: a manhã é que cai. Por um cansaço de luz, um suicídio da sombra. Lhe explico. São três os bichos que o tempo tem: manhã, tarde e noite. A noite é quem tem asas. Mas são asas de avestruz. Porque a noite as usa fechadas, ao serviço de nada. A tarde é felina criatura. Espreguiçando, mandriosa, inventora de sombras. A manhã, essa, é um caracol. Sobe pelos muros, desenrodilha-se vagarosa. E tomba, no desamparo do tempo.

Toda a vida acreditei: amor é os dois se duplicarem em um. Mas hoje sinto: ser um é ainda muito. Demais. Ambiciono, sim, ser o múltiplo de nada. Ninguém no plural. Ninguéns. Nunca eu pensei que, nesse mesmo pátio em que se estreava meu coração, tudo iria acabar. E, afinal, ele anunciou tudo nessa noite. Que a paixão dele desbrilhara. Sem mais nada, nem outra mulher havendo. Só isso: a murchidão do que, antes, florescia. Eu insistia, louca de tristeza. Não havia mesmo outra mulher? Não havia. O único intruso era o tempo, que nossa rotina deixara crescer e pesar. Ele se chegou e me beijou a testa. Como se faz a um filho, um beijo longe da boca. Meu peito erra um rio lavado, toda escoada no estuário do choro.

Deixem-me agora evocar, aos goles da lembrança. Enquanto espero que ele volte, de novo, a este pátio. Recordar tudo, de uma só vez, me dá sofrência. Por isso, vou lembrando aos poucos. Me debruço na varanda e a altura me tonteia. Quase vou na vertigem. Sabem o que descobri? Que minha alma é feita de água. Não posso me debruçar tanto. Senão me entorno e ainda morro vazia, sem gota.

Porque eu não sou por mim. Existo reflectida, ardível em paixão. Como a lua: o que brilho é por luz de outro. A luz desse amante, luz dançando na água. Mesmo que surja assim, agora, distante e fria. Cinza de um cigarro nunca fumado.

Pedi-lhe que viesse uma vez mais. Para que de novo se despeça de mim. E passados os anos tantos que já nem cabem na lembrança, eu ainda chore como se fosse a primeira despedida. Porque esses adeus, só esse aceno é meu, todo inteiramente meu. Um adeus à medida de meu tanto amor.

Por isso ele virá para renovar despedidas. Quando a lágrima escorrer no meu rosto eu a sorverei, como quem bebe o tempo. Essa água é, agora, meu único alimento. Meu último alento. Já não tenho mais desse corpo apenas pela ferida de o perder. Por isso, refaço a despedida. Seja esse o modo do meu amor se fazer nosso. E eterno.



domingo, 29 de julho de 2007

kiss




Kiss me again like anyone else kissed
Touch me gently
And play a song for me.
I’ll dance through the waves of silence
Behind the walls
Like a spoiled child
Hoping that your song
Enjoy my movement.



imagem: Passion-Giclee
Plamen Temelkov

uma corrente de ar



Não passa de uma corrente de ar. Matá-la? Como? As janelas estão fechadas, a porta aferrolhada e, no entanto, com certeza, o ar corre, arrasta-se, espia-me. Envolve-me. Entra por todos os lados e gela-me. De onde vem e por onde passa?


Matá-la, como se fosse o pavio de uma vela e deixá-la assim negra e torcida no chão como uma serpente morta, a cabeça esmagada e o sangue frio formando uma poça imunda e viscosa. Um sopro que destruiria esse sopro frio que me atravessa as costas, hálito vindo da rua, do mundo que me escuta: esse frio que foi concebido contra mim. Esse ar: assassiná-lo. Soprar para que fique sem sopro. Palavra acertada! Soprar a vela! Mas como conseguir matar essa filha do ar, que me está a matar?



Max Aub
Crimes Exemplares

some eyes are bigger than others





fotografia: rapariga
Vibrissa

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Mulher Gata

imagem: retirada do livro Saha, a gata;
Colette, ilustração de José Paulo Ferro


gosto muito deste desenho.
não por ser enigmático ou feito a carvão
mas sim por mostrar uma face de mulher triste
numa figura de gato
Gata
Mulher Gata
a olhar para ti
a olhar-te e a ver-se a ela própria
num painel espelhado deslocado da moldura
seguro por um fio
de pesca
no vazio da distância entre a Mulher Gata e tu
só ela
por si
existe
existirá
na sombra escura das portas entreabertas
a ver-te existir
por ti
Só.



curiosity

a curiosidade matou o gato
mas o gato não morreu
foi bater àquela porta
onde a velhota não atendeu
então espreitou pela janela
e viu tintas de cor como nunca
em cima de uma tela
como nunca alguém pintou
o que de dentro imagina e o que de fora ausentou




imagem: Curiosity, Jon Bertelly

quarta-feira, 25 de julho de 2007

em espiral


imagem: currituck light stairs # 1,
Frank Tozier



Quando vejo umas escadas em caracol vejo também memórias de uma infância que nunca teve o hábito diário ou esporádico de percorrer umas escadas em caracol. Mas o que é certo é que esta memória , diria quase de fantasia, tem contornos de realidade a cheirar a naftalina típica das arcas de roupas usadas, roupas da avó e bisavó.

As escadas que custam a subir, que obrigam a um esforço sobrenatural, nunca se esvaem da nossa história, a história de cada um.
Mas as que sobem em caracol, essas, por serem tão rendilhadas no seu percurso, tão estonteantes, fazem-se a rir, por entre brincadeiras e vertigens que sabem bem.
São escadas que expressam um movimento que cresce em espiral, têm vida em si próprias. Parece que aquilo a que conduzem, lá em cima, é algo especial e digno de ser alcançado pela repetição de voltas e mais voltas. Lá em cima é maior do que cá em baixo.
Deve ser este imaginário que construiu uma memória minha (ou a memória é que construiu o imaginário) que, na realidade, nunca se esboçou no meu passado.

As escadas em caracol fazem parte daquelas memórias que são reinventadas por nós talvez para completar as imagens rarefeitas daquilo que a nossa memória nos lembra que um dia fomos dentro de um contexto que nos lembra para sermos algo.
A memória vai-se condimentando à medida que vou actualizando, em processo e não em fim, a minha identidade.






rascunho



se pudesse decifrar as entrelinhas do que sinto e penso,
então viajaria em constante viagem
e olharia por debaixo das pedras da calçada portuguesa
a sombra de pó gasta pela miserável vidinha daqueles que a pisam,
todos os dias
à mesma horinha

no mesmo destino.

nesta cruel confusão
a meio de arranhadelas de gato preto carente
desdobro os meus olhos em mais dois
na urgência de focar a imagem desfocada do que escrevo
e
sinto
e
penso.



segunda-feira, 23 de julho de 2007

numa dança de mulher sem braços



Olhávamos agora a bailarina que ocupava o centro da sala numa dança de mulher sem braços. Dançava como se fosse surda e não pudesse seguir o ritmo da música. Dançava como se não pudesse ouvir o som das castanholas. Dança isolada e separada da música, de nós, da sala, da vida. As castanholas soavam como passos de fantasmas.


Ela dançava, rindo e suspirando e respirando tudo a seu favor. Dançava os seus medos, parando no meio de cada dança para atender a críticas que não podia ouvir ou para se entregar ao aplauso que não tínhamos feito. Ouvia música que não podíamos ouvir movida por alucinações que não tínhamos.

Os braços foram-me tirados, cantava.
Fui punida por abraçar. Abracei. Prendi todos os que amei. Prendi nos momentos mais belos da minha vida. Fechei nas mãos a plenitude de cada hora. Os braços apertados no desejo de abraçar. Quis abraçar a luz, o vento, o sol, a noite, o mundo inteiro e quis retê-los. Quis acariciar, curar, embalar, aclamar, envolver, cercar.

Forcei-os e prendi de tal modo que se partiram; partiram de mim. Tudo passou então a evitar-me. Estava condenada a não prender.

A tremer agitada ficou a olhar para os braços agora estendidos diante dela.

Olhou as mãos tão apertadas e abriu-as devagar, tão completamente como Cristo; abriu-as num gesto de abandono e de dádiva; era a renúncia, o perdão, abrir os braços, abrir as mãos, deixando as coisas seguirem o seu curso.

Eu não soube suportar a passagem das coisas. Tudo o que flui, tudo o que passa, tudo o que mexe sufoca e enche-me de angústia.

E ela dançava; dançava na música com o ritmo dos ciclos da Terra, voltava-se ao voltar-se a Terra, disco, virando todas as faces, ora para a luz ora para o escuro, dançando em direcção à luz do dia.



Anaïs Nin
retirado de A casa do Incesto

imagem,
the fire dancer, Ab Scott

sábado, 21 de julho de 2007

fistful of love


I was lying in my bed last night staring At a ceiling full of stars When it suddenly hit me I just have to let you know how I feel

We live together in a photograph of time I look into your eyes And the seas open up to me I tell you I love you And I always will And I know you can't tell me I know you can't tell me

So I'm left to pick up The hints, the little symbols of your devotion So I'm left to pick up The hints, the little symbols of your devotion

And I feel your fists And I know it's out of love And I feel the whip And I know it's out of love
And I feel your burning eyes burning holes Straight through my heart It's out of love It's out of love

I accept and I collect upon my body The memories of your devotion I accept and I collect upon my body The memories of your devotion

And I feel your fists And I know it's out of love And I feel the whip And I know it's out of love And I feel your burning eyes burning holes Straight through my heart It's out of love It's out of love

Give me a little bit serious love
Give me a little full love
Be full of love
Fists, fists, fists full of love...


Antony and the Johnsons/
Lou Reed
I’m a bird now
2005

fronteiras de viagem


de quando em vez dou por mim simplesmente a estar
envolta na penumbra desfocada do que vejo,


de quando em vez dou por mim a magicar
com vontade de pegar na minha mão e dançar,

de quando em vez dou por mim a pensar fora de mim
num espaço de sensações anónimas,

de quando em vez lá vou eu outra vez
de quando em vez chego lá

de quando em vez fico do lado de cá
no sofá de veludo azul
Solidão – ninho
onde o tempo me trespassa em radiografia
e se senta a meu lado,
e em paz se inspira
e respira
e no meu ombro descansa
para mais outra viagem
para mais outro corpo
de menina mulher
que de quando em vez se transporta para o lado de lá.



imagem: Cercle-Jaune,
wassily kandinsky

sexta-feira, 20 de julho de 2007

ofício do fazer sentido


ouço-te.
sigo, atenta, a fluidez da escolha de cada palavra que te torna real, tangível ao entendimento de ti próprio.

não te ouço.
vejo a pele enrugar-se no teu peito a cada expulsão de mais uma palavra.

(as mãos ficam escondidas, aí atrás – lugarejo de luz ténue, só teu.
e aí atrás seguras os estilhaços de vidro que delapidaste para te esculpires,
reconstruir de novo).

sinto-te.
as tuas mãos sangram e vertem lágrimas de esforço.
o teu corpo és tu.
encaminhas a tua mão a mim.
vamos.


(é pelo ofício do fazer sentido
que te amo).



imagem
Moment-Before-the-Kiss, rabi khan
(alterada por vibrissa)

terça-feira, 17 de julho de 2007

eras novo ainda


eras novo ainda
mal sabias reconhecer os teus próprios erros
e o uso violento que de noite eu fazia deles

esta cama de minerais acesos
escrevo para despertar a fera de sol pelo corpo
escorrem aves de cuspo para a adolescência da boca
e junto ao mar existe ainda aquele lugar perdido
onde a memória te imobilizou

enumero as casas abandonadas ao sangue dos répteis
surpreendo-te quando me surpreendes
pela janela espio a paisagem destruída
e o coração triste dos pássaros treme

quando escrevo mar
o mar todo entra pela janela
onde debruço a noite do rosto tocado…
me despeço.


Al Berto,
O Medo


fotografia,
no journey's end,
de Marília Campos

segunda-feira, 16 de julho de 2007

fica dentro de mim



fica dentro de mim,
como se fosse

eterno o movimento do teu corpo,
e na carne rasgada ainda pudesse
a noite escura iluminar-te o rosto.
no teu suor é que adivinho o rastro

das palavras de amor que não disseste,
e no teu dorso nu escrevo o verso

em pura solidão acontecido.

transformo-me nas coisas que tocaste,
crescem-me seios com que te alimente
o coração demente e mal fingido;

depois serei a forma que deixaste
gravada a lume com sabor a cio

na carícia de um gesto fugidio.


António Franco Alexandre
Duende



imagem: touch life, rabi khan






domingo, 15 de julho de 2007

wild at heart

excerto de Wild at Heart de David Lynch

Love me, Nicolas Cage

original, Elvis Presley